Este post será uma descrição do capítulo “A Prática do Amor”, do livro “A Arte de Amar” de Erich Fromm. Como foi dito anteriormente, o autor parte da premissa que o amor é uma arte. Um pintor não pode confiar que um dia aparecerá o objecto certo e, como que por magia e sem aprender qualquer técnica, ele irá produzir as mais belas obras de arte. Da mesma forma, contrariando a opinião popular, não basta aparecer a pessoa certa e depois o amor floresce sem qualquer dificuldade. Como uma arte que é, o amor necessita de alguns pré-requisitos. Para qualquer arte é necessário disciplina, concentração e paciência. Mais tarde, salienta Fromm, há que ter uma “preocupação suprema” para atingir a mestria na arte.
A disciplina está presente no trabalho mas, por a pessoa estar a correr atrás de objectivos que não são os seus, fora do trabalho a disciplina é evitada a todo o custo, e olhada com toda a desconfiança. Fromm não aconselha a austeridade extrema do passado mas acha aconselhável algum rumo na vida para haver disciplina, no que concerne a horas de acordar, tomar refeições, beber e comer moderadamente, não abusar de actividades de evasão, etc. De início, ganhar alguma disciplina custa mas não deve ser encarada como uma virtude por ser um sacrifício. A verdadeira disciplina só terá sentido quando se tornar agradável e não algo imposto do exterior.
A concentração tem a ver com a capacidade de estar sozinho. Ao contrário do que se julga, é algo importante no relacionamento com outras pessoas. Uma pessoa concentrada sabe ouvir. Aparentemente, esta atenção provoca cansaço e, como tal, é evitada. Contudo, a prática mostra o oposto. A desatenção é que provoca cansaço ao longo do dia e, à noite, dificuldade em adormecer. Através da concentração atinge-se uma maior “sensibilidade de si”, especialmente em relação a processos mentais, e perceber a causa de estados de irritação, desânimo e ansiedade. A concentração deverá ser praticada em todos os actos da vida, não apenas durante a prática da arte, mas alguns exercícios simples adaptados da meditação, alguns minutos por dia, podem ajudar.
Especificamente sobre o amor, Fromm acha que é necessário ultrapassar o narcisismo. O ego comporta-se como se toda a envolvente fosse um teatro para si mesmo. Apesar de racionalmente sabermos que não é assim, em termos emocionais o nosso comportamento é bastante influenciado por este narcisismo. Para ultrapassar isto é necessário ganhar objectividade, através do uso da razão e da humildade.
O autor refere ainda a necessidade de ter fé. Aqui a fé não é entendida como uma crença irracional, mas antes como ter fortes convicções baseadas na experiência do pensamento e do afecto. Para ter fé é preciso coragem, para não ver as dificuldades como injustiças que não deviam ter acontecido mas oportunidades que nos fortalecem, se ultrapassadas. Coragem também porque o amor implica um entrega sem reservas. Esta entrega é difícil porque, segundo Fromm, apesar de a nível consciente o medo é em não ser amado, inconscientemente o medo está em amar. É útil perceber nos pequenos pormenores da vida quando se perde a fé, fruto de traições que induzem comportamentos cobardes e depois justificações para as atitudes cobardes, e quebrar este círculo que se autoalimentada.
Subjacente à prática do amor está o conceito de actividade interna, que para Fromm é «o uso produtivo dos poderes de cada um.» É realçado que não se pode esperar ser produtivo no amor quando no restante se tem um rendimento débil. A actividade interior pressupõe um alerta constante e evitar a preguiça interior, que se caracteriza na perda de tempo, falta de receptividade e egoísmo.
Mas Fromm salienta que a prática do amor começa depois das palavras do livro, que não é um mero receituário com sucesso garantido.
MC